COMO UTILIZAR O “DEUS EX MACHINA” NA NARRATIVA







1. O QUE É “DEUS EX MACHINA”?

“Deus ex Machina” (do grego deus ex machina, que significa “deus vindo da máquina”) é um recurso narrativo utilizado para resolver problemas complexos de uma história de forma súbita e inesperada. Este termo tem origem no teatro grego antigo, onde, durante as peças, um deus ou figura sobrenatural descia em cena por meio de um guindaste (a “máquina”) para resolver situações que, de outra forma, seriam impossíveis de resolver pelos próprios personagens.

Em termos modernos, “Deus ex Machina” refere-se a uma solução dramática que surge de maneira abrupta e muitas vezes fora do controle ou das ações dos protagonistas. Isso geralmente enfraquece a narrativa, pois a resolução do conflito não depende mais das escolhas ou esforços dos personagens principais.

Definição:

  • 1. Teatro grego: uma solução súbita, muitas vezes sobrenatural, usada para resolver impasses no enredo.
  • 2. Em narrativas modernas: resolução inverossímil de um problema dramático.
  • 3. Figurativamente: qualquer situação em que uma solução improvável ou inesperada aparece de maneira arbitrária.

2. EXEMPLO CLÁSSICO: “GUERRA DOS MUNDOS”

No livro Guerra dos Mundos de H.G. Wells, a humanidade, com sua tecnologia limitada, luta contra uma raça alienígena com armamentos muito superiores. Após uma longa batalha, em que todos os recursos dos humanos se mostram ineficazes, os invasores alienígenas são destruídos por uma simples razão: eles não possuem imunidade às bactérias da Terra. A epidemia de doenças transmite a ideia de que, no fim, os alienígenas sucumbem devido a algo totalmente fora do controle humano. Esse é um exemplo claro de Deus ex Machina, onde a solução vem de uma força externa, sem a intervenção direta dos protagonistas.


3. O PROBLEMA DO “DEUS EX MACHINA”

O grande problema desse recurso narrativo é que ele remove o protagonismo das ações dos personagens. Quando o “Deus ex Machina” é utilizado, as decisões e esforços dos personagens não têm impacto real no desfecho da história. Isso pode ser frustrante para o leitor, que se envolve emocionalmente com os personagens e deseja ver suas escolhas resultarem em consequências.

Quando a trama depende de uma solução externa que surge sem aviso, o leitor sente que as ações dos personagens não foram importantes, tornando a história menos satisfatória. Stephen King, por exemplo, evita usar a voz passiva em seus textos, pois acredita que os personagens devem ser os agentes de suas próprias histórias, responsáveis por suas ações e seus destinos.


4. QUANDO O “DEUS EX MACHINA” PODE SER UTILIZADO COM EFICÁCIA?

Embora o “Deus ex Machina” tenha a reputação de ser um recurso narrativo preguiçoso, ele pode ser utilizado de forma eficaz, especialmente em determinadas circunstâncias:

  • Quando os protagonistas estão em uma situação onde suas ações são insuficientes: Em algumas histórias, os personagens podem lutar até o fim, mas o problema é tão grande que a única maneira de resolvê-lo é por um elemento externo. Isso é mais aceitável quando essa impossibilidade é conhecida desde o início da trama, reduzindo a frustração do leitor.
  • Em cenários de guerra ou conflito: Quando os protagonistas estão em um combate difícil e precisam apenas “ganhar tempo” até que uma ajuda externa chegue. A chegada de reforços ou uma intervenção inesperada pode ter um impacto narrativo satisfatório.
  • Quando se pretende destacar a limitação do personagem: O uso do “Deus ex Machina” pode ser útil quando se quer ressaltar a fragilidade de um protagonista, mostrando que, por mais que ele lute, ele não pode resolver tudo sozinho.

5. CONCLUSÃO: O VALOR DAS AÇÕES DOS PERSONAGENS

O ponto crucial é que, mesmo em histórias com intervenções externas, o leitor deve sentir que as ações dos protagonistas têm um impacto direto na trama. Nada é mais frustrante para o leitor do que uma história onde os personagens não têm controle sobre os acontecimentos. Em uma boa história, as ações dos personagens sempre estão ligadas às suas consequências, positivas ou negativas. Mesmo quando o final é triste ou trágico, há um sentimento de justiça por ter sido consequência das escolhas dos personagens.

Assim, enquanto o “Deus ex Machina” pode ser útil em circunstâncias específicas, ele deve ser usado com cautela para não desmerecer as ações dos personagens e comprometer a narrativa. O ideal é que o final da história seja construído a partir das escolhas dos protagonistas, com um desfecho que faça sentido dentro do universo criado.


6. REFLEXÃO:

Como podemos equilibrar a utilização do “Deus ex Machina” com o protagonismo das ações dos personagens? Existe algum cenário onde ele possa ser eficaz sem prejudicar a história? Vamos discutir isso na nossa próxima reunião!

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